quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Passepartout

Da ópera ao besteirol
Os teatros e desafios de mercado

Marília Cairo

_ O TCA, um dos teatros de maior porte e prestígio de Salvador, já vem investindo em projetos alternativos para atrair público, a exemplo da Série TCA, que dá descontos no valor dos ingressos para assinantes, ou ainda Grupo Convivência e Passe Livre, programas que se propõe a se aproximar das comunidades, ouvindo as suas opiniões. Nesta edição do Domingo no TCA, que colocou ingressos a 1 real, o teatro lotou. Pessoas que nunca tiveram acesso ao teatro puderam desfrutar pela primeira vez das disputadas Sala Principal, Sala do Coro, Concha Acústica e Foyer, com o projeto TCA 40 anos, que vem exibindo, durante todo este ano, em comemoração ao seu aniversário, uma programação diversificada em horários alternativos e a preços acessíveis. : “O teatro é muito bonito mesmo, muito mais bonito visto por dentro", afirma Shirley Almeida, 32 anos, empregada doméstica, que assistiu a um espetáculo no TCA pela primeira vez, na edição de Novembro de 2007.

O que o público quer?
_Ao consideramos que a freqüência de teatros em Salvador, como também no Brasil, não é muito significativa em relação a outras ofertas de entretenimento - cinemas e shows de música, por exemplo - tentativas como esta do TCA, com o objetivo de "chamar público" acontecem, mas nem sempre com sucesso. É perceptível o desinteresse dos baianos em freqüentar salas de teatro.

_ No entanto, mais que falta de interesse, o que ocorre de forma muito notável é um distanciamento de identidades entre palco e platéia: “se tenho tempo livre, vou ao cinema, teatro só fui uma vez" diz Fabiana Alves, 25 anos, estudante, sobre a sua freqüência a teatros em Salvador. Este distanciamento de realidades é um problema enfrentado por quem faz teatro há muito tempo, o que tem obrigado muitos gestores de teatro, ainda que não optem por seguir, via de regra, as “leis de mercado", ocupando-se apenas em reproduzir o que está em voga, ao menos repensar o seu papel para a realidade e para a sociedade atuais: “a nova gestão instituiu entre outras metas a acessibilidade, que é tornar o Teatro Castro Alves mais aberto para públicos diversos, além disso, ajudar a formar público para teatro e espetáculos de arte em geral”, afirma Luciano Matos (Assessoria de Comunicação/TCA).

_E aí está uma faca de dois gumes: se o teatro se utiliza de formas sabidamente do agrado popular, abre espaço para críticas no sentido de seu papel como “agente de conscientização e transformação social”, ao passo que, se busca modelos distanciados da realidade nacional ou até mesmo local, enfrenta dificuldades na recepção. Sobre esta questão, Ernesto Valença, diretor do setor de teatro da FUNCEB, acredita que a função do teatro não é necessariamente conscientizar, mas divertir. “O artista pode criar formas complexas e se comunicar com um número grande de pessoas, como também não vejo nada de errado em alguém querer modificar sua peça por que não conseguiu a resposta esperada pelo público”. Aliado a isso, surgem movimentos de educação de público e formação de platéia no país. “Em minha opinião, a estratégia deve ser a pesquisa e o aprofundamento da relação com o público, que são coisas demoradas e não se consolidam na primeira tentativa”.


_ Sobre a freqüência do público baiano a teatros, nota-se um relevante interesse da audiência baiana por comédias, tais como as vistas nos teatros Módulo e Jorge Amado, que estão sempre apresentando espetáculos de comédia escrachada como "Dr. Piaba”," A Bofetada " e " 1,99", de Ricardo Castro. O espetáculo "1,99", aliás, foi uma das atrações do Domingo no TCA de Novembro, com platéia lotada, ficando a idéia de que textos mais leves e que valorizem o cômico conseguem o apelo necessário para atrair um maior número de pessoas, angariando um público de faixa etária muito abrangente, entre adultos, jovens e adolescentes. No entanto, a despeito destas considerações, O chamado "besteirol" é na verdade um fenômeno mundial, não ocorre unicamente em Salvador, possuindo um papel importante para a dinâmica do teatro, não somente por que consegue fisgar públicos variados, mas por que pode conter, sim, elementos interessantes e válidos:” É bom que se diga que foi esse besteirol o responsável pela manutenção do teatro em várias partes do Brasil e que, se examinadas mais a fundo, muitas de suas peças tem estofo interessante”, afirma Ernesto.


Teatro como diálogo social

_ Então, falar sobre a prática teatral sempre traz à tona discussões como: se o teatro deve seguir critérios baseados apenas nas preferências dos curadores ou artistas, à revelia do que o seu público local procura? Ou a resposta então seria investir no besteirol, ou no que está na moda, no que agrada o público médio, seguindo as leis de mercado? Ou será que o público baiano, independente de sua classe social, pode se interessar por todo tipo de conteúdo ? Dentre estas alternativas, não se pode, na verdade, fazer escolhas exclusivas, visto que podemos pensar o teatro como algo em constante diálogo com a sociedade na qual está inserido, hora se adaptando, hora criticando ou se impregnando de suas referências. Assim, quando os teatros optam por formas teatrais desenvolvidas através de experimentos, que desafiam a recepção tradicional do teatro, estes estão dialogando com a capacidade de percepção da realidade e do contexto contemporâneo. Podemos pensar, até mesmo, que estas formas existam exatamente por que as formas mais tradicionais não conseguem mais nos tocar.

_ As diferentes visões de gestores de teatro e os projetos chamados de “formação de platéia”, então, estão sempre envolvidos nesses processos de troca de referências, tanto dos próprios teatros, quanto da produção artística, que é o principal cliente dos teatros: "Isso depende muito de uma postura do artista também, de estar disposto a ouvir o público e a dialogar com ele”, diz Ernesto.

Distribuição não-democrática de espaços e inexistência de tradição teatral

_ Mas as dificuldades do encontro entre público e platéia não podem ser simplificadas em gestão dos teatros e falta de interesse do público, pois isto passa por diversas questões, tais como o mau investimento de recursos e a distribuição incorreta dos espaços: “não se pode esperar que a freqüência seja sempre alta quando os teatros estão todos concentrados em áreas centrais ou mais bem providas da cidade. É preciso pensar em outros públicos, abrir espaços em locais mais periféricos e que certamente contam com pessoas interessadas em teatro”, afirma Ernesto. Aliado a isso, um ponto especialmente importante é a falta de formação de uma tradição teatral (as obras dramáticas, por exemplo, não estão inseridas nos currículos educacionais das escolas). Isto dificulta a formação de um público interessado em teatro, uma vez que estes são apresentados a esta experiência somente depois, ou muito depois do período de infância.

_ Todos os desencontros, desde a má distribuição de salas de espetáculo até a falta de investimentos em uma formação teatral, transformam o fazer teatro em um desafio para os gestores e também para os artistas que escolhem esse caminho para sobreviver. Acertar esses descompassos faz parte da dinâmica deste segmento, sempre dialogando com a sociedade. Considerando este diálogo, uma visão contemporânea do teatro, numa sociedade cada vez mais institucionalizada, mecanizada, eletrônica e midiática como é a nossa, talvez seja proporcionar momentos de troca entre as pessoas, não através de meios eletrônicos, mas através da presença física delas.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Circo Urbano

O fabuloso mundo dos sebos

Texto Naiana Ribeiro e Louise Vitorino.
Foto Naiana Ribeiro.

_Quem nunca teve um livro usado? Mesmo que ele tenha pertencido a um irmão ou primo mais velho? Aquele que responder não, pode sair correndo e entrar no sebo mais próximo só para não se sentir excluído. Afinal os sebos, brechós e outros espaços que resgatam o passado tomaram conta do Brasil e, em certa medida, tornaram-se cult.

Jeitinho brasileiro.
_Segundo o dicionário Aurélio a palavra sebo significa: 1. Substância graxa e consistente, encontrada nas vísceras abdominais de alguns quadrúpedes. 2. Produto de secreção das glândulas sebáceas, que protege a pele. 3. Bras. Livraria onde se vendem livros usados. Entretanto essa última acepção só é utilizada no Brasil, não existindo em outros países, mesmo aqueles que utilizam a língua portuguesa.


_A primeira vez que foi publicada a palavra sebo como correspondente de livraria que comercializa livros usados ocorreu no Dicionário de Brasileirismos-Peculiaridades Pernambucanas, escrito por Rodolfo Garcia, em 1924, na Revista do Instituto Histórico-Geográfico Brasileiro. Estabeleceu-se no Brasil uma diferenciação entre livraria e sebo, “No Brasil sebo é um estabelecimento que vende livros de segunda mão. Já nas livrarias, vendem-se livros vindos diretamente das editoras” como esclarece o senhor Eurico Bezerra Brandão (na foto acima), proprietário de um sebo que possui filiais em São Paulo e Recife, e que está prestes a lançar um livro sobre os sebos e sua evolução no país.

Tradição em sebos.
_Apesar de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro possuírem um número muito maior de sebos, é em Salvador que existe o maior e um dos mais antigos sebos do país, a Livraria Brandão-Sebo, fundada em 1969. A cidade conta também com o maior depósito do Brasil, com mais de 200.000 livros, situado na Estrada do Coco. São cerca de 15 estabelecimentos espalhados pela cidade, alguns são tão antigos que já tem clientela fixa além de tradição, como é o caso da Livraria Sebo Juvenil, situada na Estação Lapa e amplamente conhecida, principalmente entre os estudantes.

_Em alguns sebos podem ser encontradas peças raríssimas, como o livro Digestum Vetus-Digeftorum Feu Pandectarum Iuris, escrito em latim e editado no século XVI. Existe também exemplares que se tornaram raros por conter dedicatórias ou rabiscos em suas páginas feitos por grandes personalidades, como artistas, intelectuais ou escritores. E quanto mais antigo o exemplar ou mais famosa a dedicatória maior é o seu valor histórico e, conseqüentemente, financeiro.

Quem compra livros usados?
_A clientela dos sebos é ampla e diversificada. São estudantes, pessoas com pouco poder aquisitivos, outras em busca de edições raras ou esgotadas, ou mesmo bibliófilos, os colecionadores e amigos dos livros que chegam a ir pelo menos uma vez por semana a estes espaços. Ainda assim são muitos os preconceitos contra os sebos, mas como afirma o senhor Brandão: “De onde viriam os livros novos se não houvesse os velhos?”.

_O principal obstáculo encontrado pelos proprietários dos sebos não é convencer os clientes a adquirirem objetos usados como se poderia imaginar, mas sim encontrar exemplares para serem vendidos em seus estabelecimentos, uma vez que não existem fornecedores de livros de segunda mão. Sempre ocorrem vendas em pequenas quantidades, pessoas que se desfazem de seus livros por viagem, dificuldades financeiras ou apenas para adquirirem outros exemplares. Entretanto as grandes compras não são constantes. Para buscar “novidades” eles têm que contar com um pouco de sorte, como afirma o senhor Brandão “Quando tem alguém se desfazendo de uma biblioteca eu largo tudo que estou fazendo para ir lá”.

_Visitar um dos tantos sebos existentes na cidade é realmente uma experiência inesquecível, não só uma viagem ao passado, mas também um passeio por um mundo repleto de cores e imagens indescritíveis.


Porque sebo?
Estabelecimentos desta natureza tornaram-se famosos pelo nome de sebo porque há uns cem anos atrás era costume portar os livros nas mãos, tanto para estudantes como para professores e intelectuais. Com o tempo os livros ficavam manchados, ensebados pelo suor, logo os ambientes que vendiam os livros usados, ensebados, eram chamados desdenhosamente de sebos.

Trecho da entrevista feita com Eurico Bezerra Brandão.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Passepartout

Entre o limite da “Arte Prática” e da Transgressão

Miria Lima e Pedro de Paula


Hoje à noite coloquei, mais uma vez, minhas mãos contra a matéria – o muro.


Realizei outra “ofensiva selvagem”... Como norma, operava o labor plástico grafitado.

O vazado, a sutura e o corte da pele, revelam a ação contra a “ordem estabelecida”. Descobri que o contato com a superfície mural é limite e que o desejo de liberdade gera o ato de descolar o que ela reproduz, sem interferência. Percebi que a cidade é um sampler de grafites articulados em um mesmo som. Lembrei que o muro pode também desmoronar, ao mesmo tempo que é suscetível de receber modificações infinitas, fazendo emergir dali suas próprias expressões. Tento compreender suas imagens grafitadas...

Willyams Martins

_ Os cartazes colados nos muros onde antes só havia tinta spray são bem claros: “Williams Martins, Ladrão de Grafitti: o artista plástico Williams Martins, em um ato de extremo egoísmo para com a população, arranca das ruas trabalhos de arte feitos pelos outros, privatiza a obra e assina embaixo”. Completam a mensagem um cifrão ($) em letras garrafais, o link para se interar com a questão - www.artistapratico.blogspot.com - e um aviso para o artista: “se não tem talento, não f... com quem tem!”.

_ A causa de tanta polêmica foi “Peles Grafitadas”, trabalho do artista plástico Williams Martins desenvolvido durante o mestrado em Artes Visuais na Escolas de Belas Artes da Ufba. Ganhador do prêmio Braskem Cultura e Arte 2006 e do Salão de Arte em Juazeiro, “Peles Grafitadas” aconteceu em Juazeiro, Valença, Alagoinhas e Salvador, com fragmentos de grafites de cada uma das cidades. A obra de Williams despertou a ira de alguns grafiteiros baianos e provocou discussões sobre direitos autorais, utilização dos espaços público e privado, arte de galeria versus arte de rua e até sobre o próprio caráter do movimento grafite, ou grafitti, como grafam seus integrantes.

_ O trabalho de Williams consiste em “deslocar vestígios, depoimentos, signos colocados no espaço público por anônimos e trazer para o outro contexto”, explica Roaleno Costa, orientador de Williams e diretor da Escola de Belas Artes da UFBA. O artista construiu o que chama de “Poética do Deslocamento”: seleciona uma imagem pelos muros da cidade e prega um tecido de nylon com resina de poliéster na parede onde a imagem se encontra. Depois de colocado e seco, retira essa imagem cuidadosamente com espátulas e martelos para que a pele da tinta seja retirada da parede junto com o tecido. Aí basta enquadrar e colocar dentro da galeria.

_ Apesar de “Peles Grafitadas” ter acontecido durante o ano de 2006, apenas em setembro de 2007 os protestos dos grafiteiros vieram à tona, principalmente através do blog “Artista Prático” - www.artistapratico.blogspot.com. Lá, além de ameaças pessoais e fotos de trabalhos “roubados” por Williams, encontram-se supostas correções ao conteúdo veiculado pela mídia sobre o assunto e reflexões dos blogueiros: “Ao arrancar a obra da parede, você esta matando a arte, pois que saibam os leigos: arte urbana vai além de uma mera pintura na parede, sua composição é conseguida através do local em que ela se encontra, interagindo com elementos urbanos. Mas parece que nem Roaleno Costa, nem Williams Martins tenham a mínima idéia disto”.

_ Nenhum dos grafiteiros entrevistados pela Lupa soube identificar o autor do blog, que, desde setembro de 2007 até o fechamento desta matéria, não é atualizado. Houve até quem dissesse que foi criado por artistas vinculados ao grupo de grafiteiros zeroseteumcrew, mas estes negaram a autoria quando procurados para falar sobre o caso. Outros grafiteiros chegaram a promover formas diferentes de protesto, como o da madrugada do dia 14 setembro, em que, com a ajuda de músicos e simpatizantes, se reuniram na Praça do Campo Grande para uma passeata.

“Cadê o respeito do artista pelo outro?”

_ José Nildo Silva Mendes, 28 anos, o Lee27, grafiteiro há mais de 14 anos, teve um braço de Exu arrancado de um trabalho seu. Ao se deparar com o fragmento de seu grafite no folder da exposição de “Peles Grafitadas”, sentiu-se desrespeitado. “Quando alguém se apropria de algo que não lhe pertence, isso é grave! Já pensou se todo grafiteiro se apropriasse de um trabalho de Bel Borba ou Tatau que tivesse na rua? Onde estaria o respeito do artista pelo outro artista?” Ele afirmou gastar, em média, 500 reais em cada painel, e nem sempre obtém retorno financeiro, já que muitas de suas obras estão expostas gratuitamente pelas ruas da cidade. “Tento sobreviver do grafite: viajar, participar de encontros, palestras, workshops, mas é difícil”, afirma Lee27.

_ Para Marcos Costa, defensor da profissionalização do grafite, grafiteiro e estudante do nono semestre da Faculdade de Belas Artes da UFBa, faltou embasamento teórico no trabalho de Williams, visto que os trabalhos não são anônimos e, de certa forma, é fácil identificar os autores dos grafites, que sempre assinam suas obras colocando e-mails e sites para contato pessoal. “Williams se antecipou e não deu os créditos dos autores das obras que transpôs para a galeria”, afirma.

_ Marcos acredita que a pesquisa de Williams teria sido bem sucedida se ele tivesse atentado mais a esses aspectos. Em relação à indignação dos grafiteiros, considera válida, porém condena o estardalhaço que não leva a lugar algum: “depois não chamaram (Williams) para apresentar uma proposta para o bem de todos, para uma discussão sobre direitos autorais”, argumenta. Marcos teve uma assinatura sua descolada e, ao invés de tentar resolver o assunto com protestos, foi conversar pessoalmente com Williams. Na sua opinião, o mais correto seria Willians ter entrado em contato com os autores das obras para dar créditos aos grafiteiros e ter realizado uma exposição de caráter coletivo.

Transgressão às avessas

_ Os prêmios ganhos por Williams (R$ 40.000 no Braskem Cultura e Arte e R$ 5.000 no Salão de Arte de Juazeiro, ambos em 2006) despertaram o ódio de alguns grafiteiros, que o viram alcançar a mídia e os salões de arte com fragmentos retirados de seus trabalhos. Enquanto muitos grafiteiros se dizem contra “o injusto sistema de Salões, que premia quem tem a maior quantidade de amigos poderosos” (retirado do blog “Artista Prático”), outros reconhecem originalidade em “Peles Grafitadas”. No entanto, todos os entrevistados concordaram que faltou para Williams a vivência do movimento grafite soteropolitano, o qual é formado por diversos grupos, a exemplo de zeroseteumcrew e Oklancrew. Estes “clãs” interagem numa ambiência urbana onde todos os grafiteiros se conhecem, compondo um universo artístico multifacetado, em que há espaço para concordâncias e divergências.

_ Por sua vez, Roaleno Costa defende seu orientado afirmando que apenas cinco dos fragmentos retirados das ruas que compõem “Peles Grafitadas” são pedaços de grafites. “O resto é parede suja, é pichação, são coisas que não são absolutamente autorais. E eu acho que esta é a melhor parte do trabalho dele, porque grafite acontece e fica mais bonito na rua do que colocado dentro da galeria. Mas não deixou de trazer essa discussão à tona, sobre espaço público e tudo mais”, diz o diretor.

_ Roaleno ressalta que o trabalho de Williams traz uma nova discussão para o movimento grafite de Salvador: “muito das discussões sobre a problemática do grafite e dos grafiteiros que vieram à tona a partir desse trabalho de Williams, já foram feitas no Brasil vinte anos atrás, em São Paulo. Então, o grafiteiro de Salvador está agora vivenciando uma situação que explodiu a partir do trabalho de Williams”, argumenta. Para ele, a novidade é que a transposição do grafite para a galeria reacende o espírito contraventor do grafite, porém ao inverso. “Como o grafite não está mais se sustentando nessa transgressão, porque já foi absorvido pelo sistema, na hora em que Williams faz o inverso, ele comete um ato transgressor às avessas. E esse ato transgressor incomodou muito aqueles que há algum tempo eram os transgressores (os grafiteiros) e que deveriam ter continuado sendo, mas fizeram concessões demais.” Ele ainda alerta que o grafite comportado, seja em parcerias com instituições públicas e privadas ou exposto em galerias, deve tomar cuidado para não perder as principais características do movimento.

_ Em seu site, www.martins.art.br, de onde foi retirado o texto que introduz essa reportagem, Willians disponibiliza vídeos do programa Soterópolis da TVE Bahia sobre a polêmica e registro das primeiras remoções das peles. Também publicou fotos do processo técnico de fabricação das telas, que vai desde o enquadramento da imagem desejada até a montagem da tela, além de disponibilizar a sua dissertação. O que se percebe é que “Peles Grafitadas” foge aos padrões de comportamentos acadêmicos, trata-se de algo transgressor – uma característica do grafite – não comportado, anti-conservador, que envolve riscos e questionamentos. Apesar de ter desagradado um movimento artístico de grande aceitação popular, como é o movimento grafite em Salvador, Williams recorreu a uma das características principais da obra de arte: causar polêmica e reflexão na sociedade.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Passepartout

Uma conversa com Jorge Mello


Maria Clara Lima

_O diretor de cinema e fotografia, Jorge Mello, 55, trabalha com cinema há mais de 20 anos. Hoje, produz filmes e atua no “quase-pólo” [expressão de Mello] de cinema da Bahia. Mello é dono de equipamentos cinematográficos utilizados para a produção de filmes. De acordo com ele, material de primeira linha o qual aluga quando requisitado.

_Segundo conta, “eles são suficientes para montar até seis pólos de cinema”. No entanto, o material ficou, por muito tempo, guardado em um depósito. Chegaram a ser feitas algumas importantes produções com os equipamentos – inclusive estrangeiras –, mas a demora em se associar a uma espécie de pólo ou projeto quase lhe fez desistir.

_Foram mais de três anos de espera. Por que tanto tempo? Pelo custo. “Também não posso dar de graça”, diz. O material foi comprado em 2003 e 2004 e custou caro. O dinheiro para tal façanha, ele conseguiu juntar ao longo de sua vida. Mello inventou, por exemplo, o detector de metais formato raquete e ganhou uma cifra considerável com ele.

O quase-pólo

_O “quase-pólo” funciona no Forte do Barbalho, onde já estão, conforme conta, os equipamentos, o figurino, a cenografia e a Bahia Film Commission (BFC) – um programa do governo do estado de apoio às produções audiovisuais. O que falta? Patrocínio e investimento – principalmente o privado e de empresas locais. Só assim o pólo poderá realmente funcionar.

_ Segundo ele, o pólo é uma associação de todos que atuam no cinema. “É uma parceria com a BFC, Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV-BAHIA), cineastas, produtores, governo e outras classes que apóiam a iniciativa”. Cada parte é independente, diz. “Os equipamentos são meus, a cenografia é de outro, o figurino de outro”. O espaço, continua Mello, foi cedido pelo governo, mas as reformas necessárias ao Forte cabem aos que ali se alojam.

_ Apesar dos percalços, para ele, tudo indica que 2008 terá muitos filmes baianos. “A minha intenção é que a Bahia consiga fazer mais de 100 filmes por ano: quanto mais fizer, melhor”.



segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Circo Urbano

_David Belle, 34 anos, é um educador físico francês e criador do Le Parkour. Belle nasceu e cresceu no Sena Marítimo, na Normandia. Oriundo de uma fámilia simples do subúrbio, desde cedo treinou com o seu pai técnicas militares de deslocamento que o ajudaram a desenvolver uma forma peculiar de se exercitar e ajudar as outras pessoas. Saiba mais sobre o Le Parkour, em breve, na Lupa 04.

Veja o vídeo abaixo:




Site Oficial - Clique aqui

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Passepartout

“A retomada é um sinal de vitalidade, de vocação para a atividade”

Luiza Borges e Samuel Barros

Em entrevista à Lupa, Pola Ribeiro, cineasta e diretor do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), fala de um novo momento na produção cinematográfica baiana e da finalização do primeiro filme que roteirizou e dirigiu, Jardim das Folhas Sagradas. Ele acredita que a Bahia vive um momento promissor, mas pondera que são necessárias ações que dêem sustentação a esse desenvolvimento.



Tem-se falado muito em uma "retomada" do cinema baiano. Qual a sua opinião a respeito, levando-se em consideração quantidade e qualidade das produções baianas?


_A retomada é um sinal de vitalidade, de vocação para a atividade. Temos vocação e pessoas interessadas. Mas as estruturas ainda precisam se consolidar. O que nos cabe agora é desenvolver as políticas que garantam a continuidade e o crescimento da atividade. Uma das formas de viabilizar isso é intensificar a aproximação entre o cinema e a tevê.


Quais elementos podem ter favorecido esta "retomada"?


_Um dado foi a conquista do edital estadual de longas, capitaneada pela ABCV, que, apesar de uma certa descontinuidade, gerou três longas que ajudaram a motivar novas gerações a participar do processo de produção profissional do audiovisual. Por outro lado, não podemos esquecer de outros importantes fatos de nosso passado recente, como 3 Histórias da Bahia, a Braskem, que incluiu o cinema em seu edital de estimulo à arte e revelou novos realizadores, os festivais e outros eventos que consolidaram um público relativamente numeroso, como o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, o curso de cinema da FTC, que nos possibilita há alguns anos uma formação específica. Tudo isso tem permitido uma visão mais autêntica e ao mesmo tempo crítica própria da nossa retomada. No plano do Ministério da Cultura, destaco a política de Gilberto Gil e Orlando Senna, que foi e é de inclusão desde o primeiro mandato em todos os aspectos de um projeto de cinema nacional. E a Bahia, por ter uma vocação, pôde ser contemplada.


Quais as principais dificuldades no processo de produção de "Jardim das Folhas Sagradas" em relação ao contexto baiano?

_Jardim das Folhas Sagradas foi produzido fora do nosso edital estadual. É um filme que participou e teve seu orçamento construído por concursos e leis que estavam sendo acionados pela primeira vez no estado. A Lei do Audiovisual, a Lei Rouanet utilizada para a produção de um longa e o própria FazCultura. E, além disso, o tamanho da produção, genuinamente baiana e talvez a de maior porte já realizada aqui, com cenários, estúdios, um set que às vezes reuniu 200 pessoas e fortes articulações com a sociedade, como uma reconstituição da caminhada da consciência negra, em julho de 2006, no Curuzu, com a participação de diversas correntes do movimento negro, e ainda a nossa presença no Bom Juá, onde os moradores também participaram desde as filmagens à construção de cenários. Agora estou retomando o processo de finalização, do qual me afastei desde o início de 2007 por ter assumido a gestão da TV pública, o que acabou me absorvendo completamente.


Como está a finalização do longa? Há data prevista para estréia?


_Estamos na finalização da montagem e no processo de produção da trilha sonora. Quero lançá-lo no segundo semestre de 2008.


Qual a sua expectativa em relação à estréia do seu primeiro longa? Mais precisamente em relação à exibição do filme no circuito comercial e à aceitação do público?


_A expectativa é grande. Sou um comunicador, faço cinema para me expressar e com a consciência da expectativa que meu trabalho gera na cidade, no público, e, nesse caso, principalmente na comunidade negra, que, tanto no segmento religioso quanto no segmento político ou social, é parceira do filme. Estou convicto da necessidade de se tratar do tema da religiosidade afro dentro de Salvador. A estréia de um filme como “Povo de Santo” prova isso. Queremos desenvolver um trabalho profissional de divulgação e acesso para que Jardim das Folhas Sagradas esteja disponível. O meu desejo é viabilizar de todas as maneiras o contato do público com o filme.


Que fatores você apontaria como fundamentais para uma maior visibilidade do cinema baiano?

_O principal, como disse, é um trabalho de divulgação focado. Todo diretor,quando faz o filme, sabe, no fundo, para quem está falando. Então ele tem que buscar este público na hora de exibir. Tem que dizer às pessoas que está em cartaz e reservar recursos para que isso possa acontecer.