Por Paloma Ayres

Os telespectadores não podem esperar muita novidade no seriado, que é praticamente uma amostra do que foi para o cinema. As opiniões se dividem entre “é a cara da Bahia” e “é a caricatura da Bahia”, restaurando os questionamentos sobre como a imagem do baiano é vista nos demais lugares do Brasil, principalmente quando estampada na telona e na telinha. Essa discussão é invariavelmente longa e por isso não será prolongada ainda mais por aqui, no sentido de ater-se somente ao seriado.

Pelourinho, 1991, época da reforma do então governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães (reforma, aliás, que é abarcada na temática do espetáculo, mas mal pincelada no filme e, pelo visto será no seriado, no qual o foco continua sendo o cotidiano alegre e festeiro dos moradores do Pelô) é o cenário dessa trama de personagens. O Bando de Teatro Olodum está quase todo presente, não só os atuais membros do grupo, mas dos egressos dele, a exemplo de Lázaro Ramos (o protagonista Roque), Tânia Toko (Neusão) e Lázaro Machado (Pastor, que já causou polêmica no primeiro episódio, gerando críticas na comunidade protestante ao dar vida a um pastor ganancioso). Algumas participações especiais são esperadas, como João Miguel, Virgínia Cavendish, Nandda Costa e Preta Gil e também personagens novos, como Queixão, por Matheus Nachtergaele e Dandara, pela estreante na TV Aline Nepomuceno.
Vale ressaltar a substituição que fez uma relativa diferença: sai de cena o Boca, antagonista de Roque, vivido no filme por Wagner Moura e entra o Queixão, na mesma função, na pele de Matheus Nachtergaele. A diferença se faz na interpretação, enquanto que a sutil baianidade do primeiro deu lugar à uma carregada (para não dizer forçada) caracterização do segundo, não por Nachtergaele ser paulista, mas por não saber temperar, na medida certa, ao contrário de Moura (que é baiano, porém sabe, como poucos atores baianos, não estereotipar a já caricaturada figura baiana) a composição de um personagem baiano, aliás, repetindo o clichê já presente nas produções globais ambientadas na Bahia. Sem deixar de exibir uma versão caricaturada da “toda menina baiana” cantada por Gilberto Gil, Dandara vive o par romântico de Roque. Uma das mais importantes personagens do seriado, que comanda um dos núcleos da história, Neusão parece pouco à vontade no formato televisivo, já que poderia aproveitar ainda mais o destaque que lhe foi dado.
Do Bando, duas boas atuações: Érico Braz, que vive o taxista Reginaldo, mostra-se melhor entrosado com a linguagem global e Valdinéia Soriano, que mostra bom desempenho com Maria, a atormentada esposa de Reginaldo, que dá as suas escapadas com o travesti Yolanda (Lyu Arisson). Não dá para esquecer a dona do cortiço mais movimentado do Pelourinho, que reúne boa parte do elenco do seriado, Joana (Luciana Sousa), evangélica, mãe de Cosme e Damião – mostrando o já conhecido sincretismo religioso baiano – que não dá sossego aos seus inquilinos, com sua ferrenha defesa à “moral e aos bons costumes”, entretanto, assim como Neusão, Joana também não se sobressai tanto como deveria.
Sendo uma comédia musical, o seriado traz, através de Roque, esquetes musicais que passam pelo axé, reggae, pagode e brega. Exemplos disso são a versão pagodeada de “Tão Seu” (Samuel Rosa/Chico Amaral) e o clássico bregão “Vou tirar você deste lugar” (Odair José).

No mais, “Ópaíó” trouxe de volta à televisão o universo soteropolitano/ baiano que, desde a minissérie “Os Pastores da Noite” (baseado na obra de Jorge Amado) não se fazia presente na Globo e, mais uma vez, explorando o estereótipo do baiano, construído ao longo dos anos na ótica amadiana-caymmista-velosista...e por aí vai. Resta saber se a corruptela de “Olhe para isso, olhe”, que não é corretamente pronunciada por muitos brasileiros além Bahia, cairá nas graças dos mesmos ou reforçar o preconceito que ainda resiste entre muitos deles, bem como se é assim mesmo que os baianos querem se ver representados no plim-plim, que sempre viu, como exótico e folcloresco, os moradores da cidade da Bahia.
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